16 de setembro de 2008

Cronaca romana – Dia 2º "Troppo presto"


S. Pedro, esta madrugada...

Já estou como o outro dos Jogos Olímpicos, a manhã fez-se para dormir... Tenho acordado às seis da matina para ser dos primeiros a entrar no arquivo, que abre às 8:15. Hoje exagerei na observância e às 7:40 já estava a olhar para as pombas que acabavam de limpar a praça. É a melhor hora para admirar todo aquele recinto, sem multidões, sem rebanhos, sem vendedores do templo. O problema é não sou parente do professor Marcelo e preciso de dormir umas sete a oito horas, coisa que de todo tenho conseguido fazer. Resultado, ando literalmente a cafés, os deliciosos e curtíssimos cafés italianos, que são uma autêntica bênção e me têm permitido manter o ritmo de leitura de cerca 3500 registos da chancelaria apostólica por dia. A coisa tem corrido tão bem que já consegui bater os alemães no livro de ponto do arquivo e conquistar o reconhecimento dos funcionários da portaria, sempre prontos a cascar nos "tedescos". Estou a bater-me a uma medalha, é certo, e assim terá de continuar, sob protesto, repito, porque para mim a manhã fez-se para dormir, pelo menos até às 7:30!
Buona notte, è ora d'andare a letto

Cronaca romana – Dia 1º "Bem pregas tu Frei Bento!"


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Um dia hei-de chegar a Roma e em vez de funcionários da Alitalia sentados no chão do aeroporto em protesto pela inevitável falência da empresa, gostaria de ver os padres, irmãs, irmãos e a multidão dos enteados da Casa do Senhor em passeata à porta de S. Pedro, gritando palavras de ordem, exigindo, reclamando, manifestando. Melhor visão do Paraíso não existirá. Bem, existir existe mas é preciso primeiro destruir o silício e a hipocrisia e só depois mostrar o cinto de ligas. Julgo mesmo que a militância pela ortodoxia e pelo tradicionalismo dos costumes imposta pelo papa Rati, para celebrar a entrada em beleza da Igreja no novo milénio seja sobretudo um discurso direccionado para dentro, para sanar o pânico provocado por alguns focos de rebeldia.

Imagino que Sua Santidade (SS), homem douto e de grande inteligência, tenha percebido a eminência da revolução e a forte probabilidade do advento de uma herética "Nova Igreja do Amor Praticado Todos os Dias". Um produto mais adequado ao novo tempo e congregador de todo o rebanho, e não apenas das ovelhas aparentemente tosquiadas. Estará SS assustada com este cenário? Ou o susto tem a ver consigo mesma e com a partida que o Espírito Santo lhe pregou? Em crise existencial não duvido que esteja, sobretudo depois da dedicatória coreografada que a Madonna lhe fez da canção ícone "Like a Virgin", no concerto realizado aqui em Roma, na semana passada. Dizem as más-línguas que SS não resistiu à sensualidade da pop star deslocando-se ao Estádio Olímpico usando o disfarce de vendedora de fancaria da Prada (a sua marca preferida). Até pode ser boato de gente sem fé, todavia não restam dúvidas quanto a SS ter sido vista estes dias em Paris a saudar com grande calor e afecto o casal Sarkosy (o exemplo de bom pai de família promovido pelo Vaticano) e a bela cantora modelo italiana Carla Bruni, de ar cândido e saia abaixo do joelho, que em tempos declarou a uma revista que achava a monogamia um aborrecimento.

A corroborar este quadro de esquizofrenia pura está a cena que presenciei hoje a dois paços da praça de S. Pedro. Teria merecido uma fotografia frontal, mas os visados exigiam dinheiro pelos direitos da publicação. Por isso espero que acreditem em mim. A irmã do lado esquerdo, a que tem botas de plataforma para disfarçar a pouca altura (digo eu), apresentava um par de óculos escuros muito fashion e maquilhagem de fazer inveja à Maria Antonieta. O irmão trazia uma carteira muito suspeita e a companheira de route do lado direito... Bem, essa devia estar a ser iniciada nas artes da via-sacra. E lá foram estes três herdeiros do Woodstock romano, vulgo Concílio Vaticano II, lembrar os velhos tempos passados na praça de S. Pedro quando cantavam o Yellow Submarine e o resto do cancioneiro do Flower Power. Estavam eles longe de imaginar que 40 anos depois voltariam a ver o papa vestido de arminho e todo mordido por não se poder passear in piazza de liteira transportada por escravos núbios oferecidos pela rainha de Sabá.

Fiquei surpreso com a modernidade e a ousadia, mas logo me lembrei que SS estava fora a pregar em França. Amanhã já estará de volta ao terreiro e tudo voltará à beatitude saloia do costume.

Cordiali saluti.

13 de setembro de 2008

Meravigliosa creatura...


Roma (IT), Dez. 2007

Amanhã mais ou menos a esta hora já estarei de novo a aterrar em Roma. Não foi possível concluir o trabalho no passado mês de Julho e por isso houve que redesenhar o calendário e programar mais duas semanas que se adivinham de intenso labor lá para as bandas do costume: o Arquivo do Vaticano e as bibliotecas romanas. Tabalharei todos os dias excepto no domingo (dia santo graças ao Criador) que de tão santo talvez me deixe ir até Florença tomar um café à Galleria degli Uffizi e ver esta exposição que trago debaixo de olho.
Pouco antes do final do mês já estarei de regresso a terras lusas. Até lá continuarei atento aqui ao "escritório" e tratarei de ir aggiornando as novidades sobre o projecto, que por ora ainda não tem nome oficial e por isso baptizei provisoriamente de "All we have a dream".
Fiquem bem, não deixem de continuar a sonhar e a sorrir.
Arrivederci amici!

11 de setembro de 2008

All we have a dream



Quero expressar, com bastante emoção, a minha alegria pela forma como todos receberam esta ideia. Sonhar é importante e mais importante ainda é lutarmos pela realização do sonho. Querer é poder, eu acredito nisso e a prova está em ter conseguido em dois dias reunir um grupo de amigos e amigas (12 pessoas, tudo gente bonita e de bem com a vida), que sem muitos mas nem todavias, aderiram prontamente à ideia.
Obrigado e bem-vindos a bordo, agora é navegar rumo à concretização do sonho.
Afinal, ALL WE HAVE A DREAM!!!

Vista para a caldeira, Santorini (GR), Ago. 2005

NOTA: Em reunião plenária foi decidido alargar as pré-inscrições a 15 elementos, por isso continuam abertas as inscrições. Os demais interessados são bem-vindos e ficarão na lista dos suplentes até à escolha definitiva da embarcação e do número definitivo de passageiros. Ninguém está excluído à partida. E preparem-se que ideias não me faltam. Já estou em conversações com a SIC e com a TVI para vendermos os direitos de transmissão das nossas farras, de modo a pagarmos as nossas "biages".

10 de setembro de 2008

I have a dream


Ferry de Atenas - Santorini (Gr) Ago. 2005

Algumas pessoas que me conhecem sabem que tenho este sonho atravessado há muito tempo. Ora então aqui vai e se me quiserem chamar maluco têm toda a razão, mas a vida é para ser vivida e mais nada. Para o ano abro as inscrições para dez dias de cruzeiro pelo Egeu e pelas Cíclades, em veleiro com tripulação e cozinheiro, porque a malta não vai para trabalhar, com itinerário escolhido de acordo com o humor dos passageiros, que para evitar "atropelos" não deverão exceder as 12 pessoas. De preferência amigos que estejam de bem com a vida, gostem de aventura e de se divertirem, apreciem as coisas simples e belas que os deuses nos oferecem e tenham muita vontade de escrever na agenda a letras "bem dispostas": Verão de 2009 - Grécia!
Quem já foi ver o "Mamma Mia" sabe do que estou a falar, e quem ainda não foi e está interessado na ideia faça o favor de ver as instruções, ou melhor, o filme, pois que daqui a uns meses ponho edital na porta, ai ponho ponho. E seja o que os deuses quiserem! :)))

P.S. Nada de pensamentos ímpios do género - o gajo foi ver o filme e entusiasmou-se, tadinho. I'm talking serious.

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Consegui finalmente uma imagem de um dos barcos (6 cabines) que fazem este tipo de viagens.
Que tal?

7 de setembro de 2008

Greek style


Santorini (GR), Ago. 2005
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Muito bem, admito, pode ser piroso, pode ser kitch e até pode ser lamechas. Mas é divertido, dispõe bem, o cenário não podia ser melhor e estou mortinho para ir ver o filme "Mamma Mia!". Amo a Grécia de paixão e não resisto à música destes génios, os ABBA!
A culpa é da senhora minha mãe que me fez lavagens cerebrais em pequenino com quatro cassetes do grupo sueco a rodar em permanência no leitor do carro. Até que um dia o Fiat 600 foi assaltado mas só desapareceram as ditas cassetes. Nos dias seguintes fui olhado com alguma desconfiança, felizmente a suspeita passou rapidamente quando lhe confidenciei que já tinha saudades do Fernando... :))))
Tenham um bom domingo e uma excelente semana!!!!!!!!!

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Oia - Santorini (GR), Ago. 2005
O terraço do restaurante onde comi a melhor salada grega de sempre, com uma vista para o Egeu de tal ordem que nem ouso mostrar para evitar um novo Waterloo ;=) Lembram-se de um certo moinho Blanc bleu? Pois esse era apenas um pormenor do cenário...

3 de setembro de 2008

Summer wine


@ Viajante, Ago. 2008

Dance time with our lips.

1 de setembro de 2008

No sense, maybe


@ Viajante, Ago. 2008

A bem dizer hoje é o primeiro dia de Setembro e não me apetece nada, mesmo nada, que a «silly season» diga «the end» e falte pouco mais de três meses para o fim do ano. Se o PSD sempre se decidir pela extinção vou propor ao presidente da Assembleia da República a constituição de um grupo parlamentar alternativo, com o nome de "O meu maravilhoso mês de Agosto". Bem adequado ao nosso país e às nossas gentes, não acham? Assim viveríamos todos felizes e contentes e quem sabe se eu não teria a minha primeira e última oportunidade de ser parlamentar!?
Ah, o gato? :)) Felizmente o Zé Carlos, de seu nome, é um bichano malhado e danado para a brincadeira, além de inofensivo desde que devidamente gratificado com fatias de fiambre logo pela manhã. E embora a foto não o demonstre, talvez por motivos narcísicos (ops), gatos, então destes assim a modos que para o escuro, gosto de os olhar de frente. Figas!

29 de agosto de 2008

Noites de Verão


HM, Cercal do Alentejo (PT), Ago. 2008
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Faltam apenas umas horas para mais um fim-de-semana em jeito de prolongamento das férias que já acabaram. O Verão começa a dar ares de alguma vergonha (pelo menos cá pelas bandas de arrriba) e aos poucos vamos regressando à rotina normal. Não tarda nada será hora da dança da roupa nos armários (uma seca...) e de pensar em encomendar lenha para umas noites mais in door: uns assados perfumados com especiarias, um bom vinho, uma excelente lareira... Enfim a merecida recompensa pelo bulício do trânsito e pela pressão dos dias rápidos e cansados.
Até lá ainda é tempo de continuar a celebrar um Verão que por aqui foi muito azul, graças ao Senhor e a todos os deuses do Olimpo. Depois da praia vou visitar os meus montes e lameiros de Vidago, no Alto Tâmega, com uma paragem estratégica pelo Douro, que deve estar lindo de morrer a um mês das vindimas. Quem sabe se ainda não passo por S. Leonardo de Galafura, há tanto que não vejo as mãos ao Douro...
Fiquem bem, eu também vou fazer por isso :)

23 de agosto de 2008

20 anos a viajar


@ Viajante, Ago. 2008

Faz este Verão 20 anos que comecei as minhas viagens. O meu primeiro destino foi a antiga Jugoslávia. Tinha dezasseis anos e os olhos postos no mundo que finalmente começava a descobrir. Lembro-me da grande emoção que foi a expectativa de andar de avião e de não ter dormido na véspera da partida… E que emoção, pois mal sabia eu da missa a metade! A viagem fez-se em dois segmentos, Lisboa-Madrid e Madrid-Dubrovnik, e é claro que o meu baptismo de voo tinha de ser um teste à minha emergente vocação de viajante, pois mal cheguei a Barajas deparei-me com o primeiro overbooking da minha vida e uma espera de onze angustiantes horas por um novo voo que me levasse ao destino. Para descanso de quem já temia que as férias ficassem por ali mesmo, o avião da JAT (a antiga companhia aérea jugoslava) lá apareceu, velho e com ar assassino, ainda com as paredes forradas a papel florido, bem ao estilo “bloco de leste”.

Mas o melhor ainda estava para acontecer, mau tempo na aterragem, péssimo aliás, pelo que fomos obrigados a cumprir os procedimentos de emergência: almofada no colo, cabeça baixa e braços à volta das pernas. Para cena de filme só faltaram mesmo as máscaras de oxigénio e os coletes de salvação, porque de resto houve de tudo até gritos e não foram poucos. Enfim, para início não estava mal. Terminado o pesadelo (encarado aqui pelo aspirante como um ritual iniciático) começou outro: todos outros passageiros que vinham de Portugal ficaram sem bagagens durante quatro dias debaixo de um calor e humidade medonhos. Os hotéis eram de quatro e cinco estrelas (a preços incrivelmente baixos, graças ao Tito) mas a roupita teve de ser lavada na banheira e seca a secador de cabelo, porque não dava tempo ($) para lavandarias. A passeata começou mal, como tinha de ser para um baptismo a valer bem ao estilo de praxe, mas depois tudo se endireitou.
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Costa da Croácia (Ago. 1988)

Visitei Dubrovnik com um olho aberto e outro fechado (mas garanto que aquilo é lindo de morrer) e parti com destino a Trogir, Zadar e Split, tudo na fantástica costa croata, que gostaria revisitar assim que possível. Daí segui para Plitvice (um parque natural património da Humanidade), Lubliana (capital eslovena) e Zagreb, de novo na Croácia. A parte final da viagem fez-se em território bósnio, passando por Banja Luka (uma cidade de província onde vi posters gigantes do Tito expostos nas fachadas dos edifícios públicos), terminando em Sarajevo, a cereja em cima do bolo. Para um puto estreante foi o delírio. Como se já não bastasse estar num país "diferente" que mais parecia uma manta de retalhos, onde os ursos eram exibidos acorrentados à beira da estrada (isto na parte bósnia), o café invariavelmente turco demorava horas a servir e a beber para não correr o risco de ficar entupido com as borras, e uma ida ao banco cambiar dinheiro resultava em sacos de plástico cheios de dinares (a única vez que me senti milionário na vida); bem podem imaginar o que não foi meter-me numa Sarajevo onde em frente a uma mesquita (a maior da Europa Ocidental) encontrava uma igreja ortodoxa e ao lado desta outra de rito católico romano. Sim, assim tudo de uma assentada, bem no centro da Europa, era uma experiência e tanto.

Sarajevo (Ago. 1988)

Achei aquilo exótico e idílico, todos diferentes todos iguais, homens e mulheres muçulmanos trajando ao modo turco (calças de balão e sapatos de ponta revirada) convivendo tranquilamente com católicos de aspecto marcadamente ocidental, apesar do look "Leste". Mal imaginava eu que poucos anos depois iria ver pela televisão todo o sonho esboroar-se em horror, inclusive assistir em directo ao bombardeamento do hotel onde fiquei, bem em frente à célebre avenida dos snipers. Aquela cidade era linda, as pessoas simpáticas, com brilho nos olhos, sentia-se que viviam felizes... Compreendi posteriormente que tudo aquilo que vira estava assente, tal como me diziam os livros de história, num barril de pólvora e que nem tudo o que luzia era ouro... Felizmente o pesadelo acabou e deu lugar à reconstrução. Recomendo vivamente umas férias pela Croácia e Eslovénia, o Adriático é de uma tranquilidade inquietante, as ilhas e as praias então nem se fala. Recomendo igualmente uma visita a Sarajevo, é lá que se percebe o que é isto de Europa, o bom e o mau, o princípio e o fim. Acho que em algum momento os nossos caminhos nos deviam levar àquela cidade, só lá se percebe bem a nossa matriz civilizacional, constituída por elementos de diferentes culturas e religiões. Eu não me esqueço que tive a fortuna de ter começado o meu caminho de viajante por Sarajevo, faz agora vinte anos.
Que futuro, que caminhos? Chi lo sa? Já palmilhei muito canto, muitas paragens, mas ainda outro tanto me falta. Por exemplo, nunca fui a África nem à Ásia, nem a Melgaço ou ao Pico :) Certo é que tenho um enorme fascínio pelo mar e alimento o sonho de um dia partir num destes barcos que teimo em fotografar. Imagino que seja a viagem de todas as viagens. Fascina-me o temperamento do mar oceano quase infinito, essa última fronteira..., que nos obriga a mergulhar no mais profundo de nós mesmos e a olhar de frente para o brilho da luz que existe em cada um de nós, saibamos encontrá-lo e partilhá-lo.
Enfim, vinte anos de viagens se cumprem com a rota programada rumo ao essencial da paz e do bem, rumo ao (a)mar.

21 de agosto de 2008

Segredos

@ Viajante, Ago. 2008

Deixo aqui o conteúdo de um e-mail que me chegou estes dias. Sabedoria oriental em parábolas e metáforas que nos fazem pensar e nos deviam servir de guias. O mundo por certo seria tão mais azul...

O VASO DA VELHA CHINESA

Uma chinesa velha tinha dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara que ela carregava nas costas. Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito. Todos os dias ela ia ao rio buscar água, e ao fim da longa caminhada do rio até casa o vaso perfeito chegava sempre cheio de água, enquanto o rachado chegava meio vazio.

Durante muito tempo a coisa foi andando assim, com a senhora chegando a casa somente com um vaso e meio de água. Naturalmente o vaso perfeito tinha muito orgulho do seu próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer.

Ao fim de dois anos, reflectindo sobre a sua própria amarga derrota de ser "rachado", durante o caminho para o rio o vaso disse à velha: "Tenho vergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que tenho faz-me perder metade da água durante o caminho até à sua casa ..."

A velhinha sorriu: "Reparaste que lindas flores há no teu lado do caminho, somente no teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todos os dias, enquanto voltávamos do rio, tu regavá-las. Foi assim que durante dois anos pude apanhar belas flores para enfeitar a mesa e alegrar o meu jantar. Se tu não fosses como és, eu não teria tido aquelas maravilhas na minha casa!"

Cada um de nós tem o seu defeito próprio: mas é o defeito que cada um de nós tem, que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante.

É preciso aceitar cada um pelo que é ... e descobrir o que há de bom nele!

20 de agosto de 2008

Tempo de L(az)er


Algures à beira-mar (Ago. 2008)

Mais um dia de trabalho e mais um intervalo de almoço recebido sempre com muito agrado. Mas desta vez deparei-me à saída da biblioteca com uma vontade imensa de não voltar da parte da tarde, de regressar sim mas a outras leituras, às leituras de Verão, aquelas feitas à beira-mar, sem tempo nem prazos, sem pressas. O dia está lindo e o calor parcimonioso convida a uma ida à areia e ao embalo das ondas. Convidava, digo eu, pois não tive outro remédio se não voltar ao trabalho e a estas outras leituras de letras muy antigas cujo gosto o calendário e o relógio teimam em tornar agridoce.
Ontem fui tolerante, sorri-lhe, mas se hoje o velhinho que costuma vir todas as tardes aqui para a biblioteca "ler o jornal" ousar fazer uma sesta de quase uma hora, como fez ontem bem à minha frente... simpaticamente lhe perguntarei se me deixa ler com ele :)

11 de agosto de 2008

... LUMINOSOS dias


À beira da praia de Almograve (Ago. 2008)
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Cheguei há pouco de férias. Depois de ter atravessado o Alentejo debaixo de 35 graus escaldantes e de um céu cheio de um imenso azul arribo a Coimbra com chuva... O regresso à realidade podia ser bem mais suave, reclamei logo eu. Há quem fale da China ser um país com dois sistemas, mas acho que por cá temos um país com dois climas.
As expectativas foram plenamente superadas, foram doze dias plenos de sol, com muito campo e muito mar, um mar até agora desconhecido que passei a amar com uma devoção quase religiosa. O suficiente para classificar estas férias de inesquecíveis, num Portugal lindíssimo que tem tanto de simples e de belo para nos oferecer, saibamos nós olhar para ele. O prometido alpendre encantou, os jantares tardios extasiaram ao ponto de por duas vezes causarem curiosidade a uma raposa que habitava as redondezas da herdade. As praias dos Aivados, do Malhão e da Zambujeira deixam saudades com juras de regresso no Outono para um chávena de chá quente. O "tal" Algarve continuou a não desiludir, a despedida fez-se num fabuloso dia de praia que durou até às 21h.
Amanhã, que já é hoje, regresso ao computador, ao trabalho, no intervalo da chuva tratarei de organizar as 430 fotografias que resultaram destes doze dias... luminosos.

26 de julho de 2008

Férias, finalmente!


@ Viajante (Jul. 2008)

Ainda meio atordoado com a agitação do último mês, olho para o calendário e dou conta que estou a dois dias de FÉRIAS! Como dizem os nuestros vizinhos: en hora buena! Apesar do esforço não consegui terminar tudo o que pretendia. É o que dá colocar a fasquia muito alta. Felizmente daí não vem mal nenhum ao mundo e quando regressar acabo a faena. Olé!
Voltando às férias. Adivinham-se doze luas completas sem computador, com muito descanso, muita paz, alguma literatura, muito sol e banhos de mar. Os primeiros dias serão passados num prometido paraíso com alpendre, noites à luz de velas e jantares mediterrânicos, isto algures na costa alentejana, entre o campo e a praia como o Viajante gosta. Depois será tempo de juntar as tralhas e zarpar para o Algarve, aquele que ainda existe e que não nos obriga a estar em filas nem andar de carro.
Não parto sem antes deixar o meu abraço a todos aqueles que me costumam visitar com um pedido de desculpa pela minha ausência. Não tenho ligado nenhuma ao blog, eu sei, mas acreditem que tem sido por uma boa causa.

Paz e bem.


@ Viajante (Jul. 2008)

16 de julho de 2008

Desabafos a Contra-Relógio


Orvieto (IT), Jul. 2008

Momentos lusos que também podiam ser italianos...
Chego de manhã cedo a uma das nossas bibliotecas municipais, dirijo-me ao balcão de atendimento e a funcionária, já com um olhar indiferente e maçado decorridos apenas 15 minutos da abertura das portas ao público, lá repara em mim e lança um: ah, sim, é para consultar aquele calhamaço!? Fiz-me desentendido e respondi com um tom formal que pretendia continuar a leitura do volume requisitado no dia anterior.

Mais grave se torna esta buçal e triste observação por vir de uma recém (de)formada na tão em moda biblioteconomia, vulgo ciência esotérica dedicada aos livros e bibliotecas. Esta criatura é uma das muitas que povoam de ignorância e imbecilidade as nossas poucas casas de cultura. Um mau sinal dos tempos, sem dúvida...

Já instalado e a tentar concentrar-me na leitura do dito volumoso livro do século XVIII, olho para o lado (tal era a conversa animada) e qual é o meu espanto vejo outra técnica responsável pelo fundo antigo (documentos raros, raríssimos) a comercializar ovos frescos no átrio da entrada da biblioteca.

Duas horas depois, um simpático velhinho que passa horas a ver jornais do início do século XX e a rasgar alguns também (cada grrr é um corte na alma), resolve abrir o saquinho plástico, que havia colocado na estante dos livros (exactamente, na estante dos livros) e toca de malhar no iogurte e na bolachinha. Findo o repasto, volta a embrulhar o ruidoso saquinho de plástico e regressa à sua nobre tarefa: vincar e rasgar jornais raros e a fazer as suas anotações a caneta no verso de folhas de estrato do banco.

Ele não tem culpa, a culpa é dos "calhamaços" de duas pernas (nem jeitosas são) que estão a povoar as nossas bibliotecas e que o nosso fantástico sistema de ensino teima em classificar de técnicos superiores... só se for de estupidez. Amanhã tentarei indagar a razão de um monte de revistas cor de rosa no balcão de atendimento. Esta deve ser a razão de ter visto tanta asneira num espaço tão pequeno e em tão pouco tempo.

Já alguém dizia a propósito do nosso "atraso". A culpa não é da nossa mão-de-obra, que é boa ser for bem conduzida e estimulada, mas sim das nossas elites e dos nossos gestores. Adoram olhar para o "Dr" e ficar atrás da sua secretária a olharem-se ao espelho.

Como eu aprecio esta nossa latinidade. Pelo andar da carruagem isto só será mesmo Allgarve. E andou o Afonso a bater na mãe, para quê?

11 de julho de 2008

Notizie


Piazza Navona, Roma (IT), Jul. 2008

Aqui estou de novo acabadinho de regressar de Roma, onde deixo sempre parte da cabeça e do coração. Venero aquela cidade, ponto final.
Ao contrário do que imaginava nem a placa de acesso à net me valeu. Por isso não consegui dar notícias e fazer o meu "diário romano", as fotografias também ficaram condicionadas ao facto de não ter espaço na pasta do computador, já suficientemente pesada para ainda carregar com o monstro da máquina. Preciso de arranjar uma mais pequena para estas ocasiões de viagens em trabalho. De qualquer modo tenho fotos e algumas histórias felinianas para contar. Quanto me ri e sorri por aquelas ruas, nesta altura do ano particularmente animadas e ocupadas pelas esplanadas dos cafés e restaurantes. E música, muita música... Roma estava espectacular, como não a via há muito tempo!

Mas não pensem que só foi passeata, nada disso. Foram dez dias de intenso trabalho, de segunda a sábado enfiado no Arquivo do Vaticano das 8:15 até às 18h, com um intervalo para almoço, de preferência num qualquer sítio com ar condicionado, pois como vos disse o calor que faz estes dias naquela cidade é demolidor. A partir das seis da tarde encerrava o expediente para gelado, banho e um belo jantar pelas ruas do quarteirão da Piazza Navona. Soube muito bem, regressar aos meus cantos preferidos e ser recebido com um "Ciao caro, sei tornato!?". Como também soube muito bem os passeios post prandium pelas ruas do Pantheon, do Campo dei Fiori, da Piazza Colona e de S. Lorenzo in Lucina. No Verão a noite de Roma é.... era um pecado ter de regressar a casa as onze, mas que fazer, estava ali para trabalhar. Só folguei no sábado à tarde e no domingo, graças à generosidade de uns amigos e do seu carro com ar condicionado, rumei às ruínas etruscas de Sutri, a Civita di Bagnoregio e ainda dei um pulinho a Orvieto, na Umbria.

Enfim... voltei, embora continue ocupadíssimo e in giro nas duas próximas semanas antes de ir para férias. Seja como for farei os possíveis para vir aqui deixar-vos umas fotos e algumas histórias da cidade que para mim será sempre eterna.
P.S. Tão eterna que, a arrepio dos meus planos, já marquei na agenda o meu regresso para os finais de Setembro. Pois é..., é o mal da investigação principalmente quando é feita no maior arquivo do mundo, mai finici.

3 de julho de 2008

Ecco mi qua !


Piazza Navona (Jun. 2008)

Finalmente consegui aceder à net!!! Nem podem imaginar a minha alegria, ao fim de quatro dias de completo blackout informático. Sabem, é que esta terra tem destas coisas estranhas... Há dois dias atrás consegui encontrar um internet café, mas era tão bom que ao fim de dois minutos o computador que estava a usar bloqueou, escusado será dizer que não me devolveram o dinheiro. Bem, graças a um amigo italiano consegui uma placa de acesso à rede e aqui estou. E não podem imaginar nem como nem onde, pois eu também não imaginava que fosse possível. Estou sentado na colunata de Berbinini, na Praça de S. Pedro, de computador ao colo a ver o correio e a deixar-vos un caro saluto da Roma. Enquanto isso ao meu lado estão centenas de turistas exaustos e esturricados do calor, com um ar de dó e piedade. Sim, essa tem sido a marca de todos estes dias na Cidade Eterna: a canícula romana. Digo-vos, é insuportável. As temperaturas têm oscilado entre os 22 e os 36 graus, com uma humidade elevadíssima. O cenário é tropical e o ritimo de trabalho só se consegue manter à conta de muitos cafés e banhos gelados. Podem imaginar quão saborosas têm sido as noites nas esplanadas dos cafés e dos restaurantes do "meu" bairro, bem ao lado da Chiesa della Pace e da Piazza Navona. Pena é eu ter de recolher à cela às onze da noite, horário imposto pelas freiras do albergue onde me instalei. Desta vez deram-me uma espécie de quarto, um cubículo com um janelo mínimo, conquistado ao espaço da igreja do século XVII. O problema é que noutro dia quis tomar banho e fazer algo mais e não tive outro remédio se não esperar que a missinha e os cânticos acabassem. Ainda pensei abrir o chuveiro e cantar o "Sole mio", porém achei melhor garantir o cubículo por mais uns dias. Roma tem destas e muitas outras coisas, que não se podem contar de uma vez só.
Agora me ne vado, acabou o intervalo do almoço, o papa Rati já veio à janela dizer ao povo para desandar (deve estar na hora da sesta de sua santidade, imagino a roupinha Prada escolhida para a ocasião...) e esperam-me mais três horas de arquivo, quem sabe na companhia da americana que volta e meia dá gargalhadas tolas com a leitura dos relatórios do Concílio Vaticano II. Cá para mim não são os relatórios que a fazem rir, ali há gato escondido. O ar satisfeito da pequena é incompatível com qualquer documentação conciliar. Baci tanti!

27 de junho de 2008

R O M A



Arrivederci amici, ci sentiamo presto.
Domenica prossima partirò per Roma.

Un caro saluto a tutti voi.

22 de junho de 2008

Dolce fragole


@ Viajante (Abr. 2008)

Tenho andado meio arredado daqui ocupado entre as emergências familiares recentes e o terminus da demorada investigação do meu doutoramento, que me permitirá iniciar a não menos penosa e longa caminhada da sua redacção. Comprometi-me ter esta etapa concluída antes de ir de férias, nos inícios de Agosto, e aqui estou a declará-lo urbi et orbi. Depois, carregadas as energias com muito sol, praia, chillout e bons tratos, mergulharei nas águas profundas e nas correntes normalmente imprevisíveis que envolvem a escrita de uma tese. Digo-o com algum frio na barriga pois sei o que isso significa: dias e dias fechado, concentrado ou a tentar concentrar-me, por vezes alienado, com dez ou doze horas de computador diante dos olhos, cansaço, desespero, satisfação, enfim aquela tortura agridoce que caracteriza o acto de escrever. Custa, custa muito, mas nos fim sabe muito bem. Por uma questão de sanidade mental terei de vir à superfície oxigenar (e se não vier chamem-me, por favor), por isso continuarei a andar por aqui. Se este canto foi útil para ultrapassar uma fase menos boa do meu caminho, estou certo que também o será para a dobragem de mais este cabo que é o da Boa Esperança. Ah sim, é que depois, vá para norte ou para sul, ninguém me apanhará :)

Encerro portanto a fase final da pesquisa com mais uma deslocação de trabalho a Roma, mais propriamente ao arquivo do Vaticano (agora só parcialmente secreto) e a algumas bibliotecas da Cidade Eterna. Durante dez dias andarei por aquele mundo louco que já foi o meu durante dois anos consecutivos e do qual nunca me conseguirei desligar, nem quero! Ficou-me na pele para sempre. Se conseguir encontrar um ponto de acesso livre à net dar-vos-ei notícias da minha estadia. E se esta decorrer como de costume terei muito que escrever por aqui. Por falar nisso, lembrei-me de umas certas crónicas que escrevi para cá, há uns seis anos atrás, na sequência de uma idêntica incursão de trabalho, e que fizeram as delícias dos amigos. Houve até quem as reunisse numa espécie de best of...

A ver vamos se os romanos continuam loucos e as romanas lindas de encantar. É certo que o género Sofia Loren já era, de qualquer modo distingue-se a milhas una vera ragazza romana o napolitana ;) Até aterrar no aeroporto Leonardo da Vinci, em Fiumicino, falta precisamente uma semana exigente com a preparação do trabalho a realizar. O tempo cá e lá será contado ao minuto, não me posso esquecer que tenho este compromisso comigo mesmo, acabar a via-sacra da tese para poder despreocupadamente comemorar o dia mais longo do ano e saborear em pleno os doces morangos de uma noite mágica de solstício de Verão.

17 de junho de 2008

De mãos dadas


(c) Carlos Lopes Franco, 2008

Depois de várias tentativas frustradas consegui conversar como deve de ser com a minha mãe coragem. Precisava de perceber ou de ter a certeza dos motivos da tristeza e da apatia em que mergulhou desde há uns tempos a esta parte. E quem sabe conseguir ajudá-la a falar de si, coisa difícil, muito difícil, o seu calcanhar de Aquiles de sempre. Fez a resistência habitual mas lá consegui que começasse a abrir-se aos poucos. Fez-lhe bem, fez-nos bem.
No meio da conversa, e ao meu apelo para fazer novos amigos, se não mesmo para refazer o seu quase inexistente círculo de amizades, vieram-lhe as lágrimas aos olhos e disse-me, num tom de criança abandonada que me trespassou o coração: eu tenho medo de voltar a acreditar em alguém...

Foram muitos anos a fazer bem a tanta gente e contam-se pelas palmas de uma mão aqueles que não a usaram. A minha mãe coragem tem hoje 61 anos, a virtude de sempre ter ajudado demasiado os outros e o defeito de quase sempre se ter esquecido de ela própria. Sente-se cansada, só, traída, injustiçada, descrente. Não a censuro, bem sei que tem motivos de sobra para se sentir assim, mas estou consciente que este quadro depressivo pode ser muito perigoso nesta idade. Vai precisar de muito colo para voltar a sentir que vale a pena continuar. Eu preciso que ela não desista para eu não desistir também.

Para já pedi-lhe que prometesse a si mesma que de hoje em diante ELA passaria a ser a prioridade. O resto virá depois, de mãos dadas.

16 de junho de 2008

Essências


@ Viajante (Abr. 2008)

Hoje atravessei meio Portugal, de Coimbra até Vidago, constatei um país adormecido por aquela chuva mansa que só escolhe o domingo para cair e inebriado pelo europeu de futebol. Um cenário atípico para meados de Junho mas próprio de uma sociedade que se alimenta apenas da espuma dos dias.
Cansado e de regresso a casa, com banho tomado e projectos de remanso no sofá, consegui contrariar os infindáveis directos e especiais dos pseudo comentadores da nova ciência futebolística e espreitar a RTP2. Ganhei o dia! Foi uma hora e pouco de puro deleite, seguindo o programa Câmara Clara, hoje dedicado aos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa e tendo a octogenária Germana Tânger como convidada especial. Esta grande senhora da arte de dizer poesia, que privou com Teixeira de Pascoaes, Almada Negreiros, José Régio, Natália Correia, conheceu Vieira da Silva e tantos outros vultos da nossa cultura do século XX, numa lição de humildade e grande sabedoria, agradeceu à Paula Moura Pinheiro no final do programa pegando-lhe nas mãos e dizendo "foi uma conversa tão espontânea, tão animada. Afinal viver é isto, obrigada".

10 de junho de 2008

10 anos depois


@ Viajante (Abr. 2008)

A minha varanda sobre a cidade está de novo em festa. Se no dia da inauguração pedi branco de paz, de luz, de amor, hoje pinto o meu blogue de verde, de verde esperança das folhas que metaforicamente compõem as PÁGINAS deste dez anos loucos, como só eu sei ser... Foram anos em que nunca desisti de lutar por ser mais e melhor. Se consegui, não sei, sei que a estrada já vai a meio e que quero continuar a caminhar. Foram anos cheios, com quase tudo o que faz uma VIDA cheia, com amor, alegria, tristeza, dor, prazer, mágoa, perdão, paixão, amor, desilusão, amizade e tantas mais "coisas". Certezas só tenho uma, que tenho outro tanto para viver (porque não pensar assim), por isso pinto o meu dia de verde, de verde esperança, por outro tanto de mais e melhor.

5 de junho de 2008

Ele há dias assim

@ Viajante (Abr. 2008)

No espaço de 24 horas recebi dois telefonemas insólitos: um a pedir uma entrevista sobre o meu trabalho académico e um outro a anunciar, ainda para este mês, o lançamento na FNAC de um livro de que sou coordenador. Para quem está a atravessar o deserto e a quem nada acontece de mão beijada é no mínimo para estar moderadamente satisfeito. Sim, porque já se sabe que quando a esmola é grande o santo desconfia. Ó se desconfia...
Pelo sim pelo não vou manter o telefone ligado, não vá o próprio ministro querer formalizar aquilo que as más línguas têm apregoado aos sete ventos: que "ele" anda a preparar a candidatura a director do museu... Eu cá preferia que os telefonemas tivessem o prefixo internacional, pelo menos ficaria mais crente que não se trataria de mais um efémero ataque do pavão lusitano. É que no resto do ano os dias estão longe de ser assim...

3 de junho de 2008

Dança do Sol (II)


@ Viajante (2004)

Faltam sete dias para o 10 de Junho. Toca a aquecer os motores, o santo das chaves capitulou: HABEMUS SOL!
As inscrições estão abertas para a festa da varanda, ainda há lugares disponíveis.
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Aviso: é preciso que as tropas se cheguem para acertarmos os bebes e os doces.

31 de maio de 2008

Desconcertos

Será que andamos assim tão cinzentos, deprimidos e à beira da falência técnica? Como explicar então que, em duas horas, tenham sido vendidos 20 000 bilhetes a 60 aéreos cada um, para o concerto da Madonna, que se realizará em Lisboa daqui a 4 meses? Isto se entretanto não lhe der na cabeça de o cancelar. Reparem, estou a falar de um milhão e duzentos mil euros gastos em duas horas para ir ver um concerto...
Cheira-me que andamos todos desconcertados. Como se já não fosse escândalo suficiente 90 mil pessoas terem pago um bilhete igualmente caro para ouvirem, no Rock in Rio, a bêbada e a drogada da Amy Winehouse fazer figuras tristes e insultar quem luta por ganhar alguma coisa na vida de forma digna.
Vou gravar um disco, pode ser que assim dê serventia à minha licenciatura, ao mestrado e ao quase doutoramento. Entretanto mergulho as bentas na cachaça e no rum, sou o ídolo das massas e ganho milhões.


29 de maio de 2008

Dança do Sol


Praia na costa de Alagoas (BR), Ago. 2003
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Se nunca foram a Inglaterra já podem, pelo menos, ficar com uma ideia de como o tempo se apresenta por esta altura. Mais ou menos como ele está por cá: 15/20º, chuva agora, chuva depois e sol muito de vez em quando. Uma seca, uma pasmaceira nostálgica de entediar as mais pequenas aranhas. E se repararem bem até as andorinhas estão em debandada, praguejando contra o operadores turísticos que lhes prometeram sol e praia com vista para o Atlântico.
À estranheza dos bichos eu acrescento que nós latinos não fomos feitos para isto. Alguém nos programou para sermos alimentados pelo astro rei, pelos passeios de fim de tarde, pelo dolce fare niente de uma esplanada, pela praia, pelo calor, enfim pela luz que nos dá energia. Em vez disso o que temos? Notícias que nos deprimem todos os dias (hoje voltou a aumentar o raio da gasolina) e esta porcaria de tempo que teima em nos pintar a cara de cinzento.
Aconselho a quem tiver boas relações com o divino que avance com orações e promessas, eu cá como já sou um caso perdido para o Altíssimo vou começar com o meu ritual da dança do sol: ligando o aquecedor do escritório, vendo imagens de férias no computador e a acrescentar hortelã e limas à lista do supermercado, para muitos mojitos e caipirinhas. Valha-nos isso e a música!!

26 de maio de 2008

Silêncio


Cabo da Roca, Ago. 2007

Hoje, pelas 13h, na sequência de um brutal acidente de automóvel, faleceram os pais do JP. Havia um derrame de combustível ao longo de 500 metros, o carro em que seguiam entrou em despiste e foi embater noutro veículo que vinha em sentido contrário. Bastaram meia dúzia de segundos para duas pessoas falecerem estupidamente, à conta da incúria e da falta de civismo que corrói este país.
Eram avós, eram pais, eram sogros, eram irmãos, eram tios, eram amigos, eram.
Levar um pai à terra sei que é muito difícil, agora dois imagino que seja insuportável. E tudo por causa de um derrame de combustível...

25 de maio de 2008

Every lie has its consequences

Sábado à noite, chuva a potes, vontade de sofá, de manta e aconchego, depois de um dia muito animado na companhia de bons amigos. Como a televisão é mentira, principalmente ao fim-de-semana (nem sei para que tenho N canais no cabo), resolvi recorrer ao videoclube mais próximo. Ao fim de uma primeira e pouco esclarecedora passagem de olhos pelas capas dos filmes, escolhi este Breaking and Entering, de Anthony Minghellam, por pura intuição e não me arrependi. Vale a pena! Fala da crueza das relações sociais e emocionais dos dias de hoje, e da verdade como forma de superarmos o fracasso e a desilusão.

22 de maio de 2008

Momentos...


Viajante, Abr. 2008

... únicos, felizes. O sal dos "inta" e o picante dos "enta".

21 de maio de 2008

Humor britânico...


Tshirt, Londres (UK), Jan. 2007

... eu chamar-lhe-ia, objectividade. Moral da história: para quê complicar quando muitas vezes temos a chave do problema bem perto de nós, à distância de uma esticadela de pescoço?

Bom feriado!

20 de maio de 2008

Gula


Algures num mercado italiano

Será normal às duas da manhã reclamar por um spaghetti com flor de abóbora (zucca)? Não, pois não. Pois, também ninguém me mandou comer só fruta e sopa ao jantar...
Uma vez que pelas nossas bandas não se comercializa tal coisa, ficam já a saber que estou no mercado, troco por alheiras, chouriços e azeitonas. Raios, será que não conseguirei fazer uma pasta ou uma pizza com anchovas e as ditas fiori? Garanto-vos que é uma delícia, até fritas marcham.

17 de maio de 2008

Irreverência e liberdade


@ Viajante, Abr. 2008

Ontem regressei de Lisboa já bastante tarde, passava da uma da manhã quando me fiz ao caminho, pela frente tinha 200 km de uma auto-estrada com pouco movimento. O receio que o cansaço me vencesse fez com que recorresse à costumeira estratégia de carregar no pedal. É um vício a que não resisto, desde que o tempo e as condições da estrada o permitam, sou maluco mas nem tanto. Ainda avistei duas brigadas de trânsito que me obrigaram a comportar como um menino do coro, mas de resto foi uma viagem meio louca, conscientemente louca. Além da velocidade, não faltou o ambiente psicadélico das luzes a correr e da música bem alta, em jeito de discoteca...
Pensando bem, esta farra deve ter sido inspirada pelo animado jantar no Hard Rock e pela peça, quase homónima, "Rock 'n' Roll", que tinha acabado de assistir no Teatro Aberto. Uma história interessante de Tom Sptoppard que tem como pano de fundo o percurso político europeu, desde o movimento estudantil de 68 até à queda do Muro de Berlim. Um percurso visto a partir de Praga, onde uma banda de rock assume o papel de símbolo de resistência ao regime socialista, e a partir de Cambridge, através da história familiar de um professor universitário marxista. Enquanto a narrativa se desenvolve (e desenvolveu muito) o público é convidado a revisitar uma série de sucessos musicais que se converteram em verdadeiros ícones destes 40 anos de irreverência e liberdade. Sim, 40 anos! E, por favor, façamos qualquer coisa, que isto de viver numa sociedade desmorecida de lutar por ideais, mais que não seja o do paz e amor (o que já seria uma boa obra), não tem piada nenhuma.

8 de maio de 2008

Oriente


Jardim Oriental do Monte Palace, Funchal, Abr. 2008

Amanhã abre ao público um excelente exemplo do que nós temos capacidade de fazer desde que o Estado não se meta de permeio, refiro-me ao Museu do Oriente. Um projecto da responsabilidade da Fundação Oriente que de uma forma arrojada converteu um dos antigos armazéns frigoríficos do Porto de Lisboa em mais um ponto de visita obrigatória da capital. Este novo pólo museológico de alto nível, com um programa de actividades e publicações digno de fazer corar de vergonha o IMC e o nosso Ministério da Cultura, constitui desde já uma referência internacional e vem colmatar uma lacuna imperdoável na cena cultural portuguesa.

Eu bem sei que muitos o desejariam, mas em boa hora outros teimaram em não deixar esquecer que fomos os primeiros a chegar e os últimos a partir do Oriente.
Já não nos lembrávamos disso, pois não?

3 de maio de 2008

A poucas horas do Equador (II)

Depois de cada viagem por terras diferentes tenho o hábito de reler os roteiros que me acompanharam e revisitar com demora as fotografias que fui tirando. Quando se viaja por gosto, como é o meu caso, é raro não nos enamorarmos pelos lugares por onde passamos e dos quais guardamos religiosamente memórias de momentos felizes e dias despreocupados. Difícil mas inevitável é ter de regressar à vida de sempre e deixar no baú das memórias mais um namoro de férias. Numa primeira passagem por essas lembranças recentes seleccionei estas imagens que de algum modo ilustram três dias bem passados numa ilha portuguesa a poucas horas do Equador.

Nesta altura da Primavera algumas ruas do Funchal estão pintadas a tons de azul dos Jacarandás e de laranja-avermelhado das flores de uma outra árvore que tem o nome de Chama-da-Floresta, uma espécie que foi introduzida na Madeira, em 1772, pelo famoso capitão Cook.


O Mercado dos Lavradores: a zona das flores onde também se vendem bolbos e sementes para todos os gostos; as bancas de frutas tropicais, algumas muito esquisitas como a banana-maracujá, com formato de uma banana anã e com o interior semelhante ao maracujá; e o imperdível mercado do peixe monopolizado pelo não menos saboroso peixe-espada.

A subida de teleférico ao Monte, a visita ao jardim tropical do Monte Palace, e a admiração pela perícia dos carreiros que conduzem os carros de cesto numa descida sinuosa de 2 km até Livramonte. Não, não fui porque não me deixaram, para a próxima, irei!



A viagem de carro até Porto Moniz (sitio mágico), começando pelo Curral das Freiras e passando por S. Vicente e Seixal, continuando de regresso ao Funchal, pela ponta do Pargo (a mais ocidental da ilha), pela Calheta, Ribeira Brava e Câmara de Lobos. Deu para perceber a beleza da paisagem e como antes da construção da via-rápida aquelas povoações viviam isoladas de tudo e de todos. A Madeira não é só o Funchal, é uma ilha lindíssima que tem muito para ver e não é em três dias. Deu para perceber que quero voltar...

2 de maio de 2008

A poucas horas do Equador (I)


Passaram dois dias desde o meu regresso ao continente, após uma curta incursão pela Madeira. Em jeito de prólogo ao que poderia ser o relato da minha viagem, caso a inspiração me ajudasse e o trabalho me permitisse, devo dizer que foram dias excelentes, de sol e de paz. Inicialmente amedrontado pelas terríveis descrições de hordas de turistas em excursões de autocarro, acabei por me render à beleza e à pacatez da ilha, mesmo nos locais mais concorridos, e por me deixar conquistar pela imensa simpatia dos madeirenses. Não imaginava, confesso, estava a contar com mais um Algarve explorador, indiferente e com poucos indícios de autenticidade. Também não esperava que o tempo estivesse tão de feição nesta altura do ano. O inesperado vento de leste fez subir o termómetro aos 30º e deu aquele remate tropical ao cenário já de si deslumbrante.
E qual cereja em cima do bolo, a boa maré deste viajante não se ficou por aqui. Acertei em cheio na escolha do meu poiso no Funchal, um local a repetir e a recomendar. Apesar de obedecer aos requisitos de tantos outros resorts espalhados por este mundo globalizado, a simplicidade e o bom gosto imperavam por lá. Dos recantos que mais apreciei deixo aqui a lembrança do delicioso alpendre sobre a piscina, onde religiosamente abraçava o anoitecer com o ritual retemperador de um bom jantar e de uma boa conversa.
Os alpendres perseguem-me ou sou eu que os teimo em conquistar... Sei que são terrivelmente sedutores. E este caiu-me no goto, tinha vista para o mar e para as noites cálidas e sussurradas que só os lugares a poucas horas do Equador nos podem oferecer.

24 de abril de 2008

36. . .


PreParty Martini by Chris Grossmeier

É certo que a passagem de mais um aniversário pede um brinde com champagne, bebida a que aliás dedico particular afeição. Enfim, manias que se vão refinando com o tempo... Este ano, em vez das bolhinhas, decidi celebrar a ocasião com Martini Bianco, com duas azeitonas... Numa versão também alpendre, igualmente ao gosto do viajante, mas com um toque de piano bar, ao som de Bossa Nova, Jazz, Blues... entrecortado por conversas animadas, outras sussurradas e sorrisos, muitos sorrisos.
Venham daí, puxem de uma cadeira, ouçam um pouco de música e peçam a vossa bebida, hoje é por minha conta.

A vida é realmente bela desde que a saibamos viver. Haja saúde! A vós pela amizade, pelos beijos e pelos abraços que me têm deixado aqui... ergo o meu Martini.